Charqueadas, 10 de setembro de 2009.
Meritíssimo Juiz:
Venho através deste, expor-lhe uma triste realidade; uma realidade que todos fecharam os olhos e se calaram, não por conivência, mas por medo: que o crime organizado já chegou ao nosso estado, se enraizou e comanda nossas prisões, principalmente a PASC. Tal é o seu poder que nós funcionários passamos a ser “reféns”: trabalhamos conforme as suas “normas”, ou somos ameaçados, “enchovalhados” perante a opinião pública, temos nossa reputação e idoneidade moral contestada diante de falsas alegações e assim vai ocorrendo até que cansados de fazer frente a essas organizações nos rendemos e tentando preservar o mínimo de dignidade que nos restou desta árdua batalha, pedimos para ir trabalhar em outras prisões. Tal decisão muitas vezes ocorre para que não comunguemos com o funcionamento criminoso de alguns apenados.
É Meritíssimo, triste realidade a nossa que todos os dias saímos de casa para exercer nossas atividades, sem a certeza de que voltaremos ilesos, não somente fisicamente, mas principalmente moralmente. Aqui na PASC somos julgados e sentenciados por um “tribunal” sem nome; não temos defesa e a nossa condenação, por vezes, é perpétua, pois quando se atinge a idoneidade e a reputação, nem uma pena temporal apaga.
Não temos direito ao 1/6 e tampouco aos direitos mínimos de ampla defesa. Covardes são as formas de “ataques”; covardes são algumas “reclamações”; covardes são as “ameaças” que muitas vezes estendem-se a nossos familiares.
Meritíssimo, quando ingressei no serviço público, há aproximadamente 10 anos, acreditava que havia sentido o meu trabalho, que fazia sentido acreditar e investir em convicções. Parafraseando Olga Benário; “Lutei pelo que achava justo e correto; para que pudesse fazer uma sociedade melhor”. Todavia, jamais me refutei ou me “escondi” de situações que se fizeram necessárias; busquei fundamentar meus atos e entendimento, com o claro propósito de auxiliar aos senhores em uma decisão. Não “brinco” de trabalhar; não faço experimentos e tampouco utilizo a sociedade como “laboratório”. Não omito fatos que acho importantes e que possam servir de subsídios ao judiciário. Não sou juiz, tampouco tenho poder discricionário, sou somente uma servidora pública que procura de forma consciente e madura exercer suas atividades.
Contudo, meritíssimo percebo o quanto é difícil ser “profissional” em um lugar onde covardemente somos aviltados tanto por apenados, quanto por alguns de seus defensores. A moral e a decência são valores inquestionáveis. Onde está a nossa fé pública? Onde está o respeito pelo profissional? Somente quem trabalha 08 horas diárias (isto no papel, porque freqüentemente levamos serviços para as nossas casas: o sistema tem que funcionar), de segunda a sexta (e quando necessário) sabe as dificuldades vividas.
Vergonha é o que sinto quando percebo que valores estão sendo distorcidos: nós passamos a ser reféns do medo. A que ponto chegamos; é realmente, o sistema prisional beira a falência. Heróis são aqueles que continuam lutando para que haja justiça; heróis são esses colegas pais de família que fazem quase que dupla jornada de trabalho para dar a seus familiares uma vida mais digna.
Meritíssimo, perdoe-me se trago a vossa excelência minhas agruras e mazelas; contudo, cansei de fazer de contas que não temos conhecimento do local em que estamos; cansei de “fazer de contas” que não vi a triste situação de colegas que “adoeceram” por não conseguirem realizar suas atividades de forma honesta: guerreiros colegas; por vezes meninos, com convicções de que conseguiriam mudar a realidade das prisões; guerreiros porque acreditaram em seu saber profissional, investiram e se dedicaram, mas que agora demonstram cansaço pela luta desigual travada diariamente.
Meritíssimo, vejo hoje uma administração cujo intento é trabalhar dentro da legalidade, da moralidade e do respeito. Todavia, vejo que estes “heróis” também percebem a triste realidade desta penitenciária, contudo, mostram-se aguerridos e continuam a lutar.
Meritíssimo, esta casa prisional procura disponibilizar aos apenados todos os elementos necessários para uma boa trajetória carcerária. Os apenados possuem o que muitos pais de família e trabalhadores nunca tiveram e talvez nunca terão: serviço social, psicológico, mesmo tendo alguns apenados seus advogados constituídos a casa oportuniza que sejam atendidos por profissionais de excelente estirpe do setor jurídico; possuem enfermaria, sendo que esta profissional não tem dia e tampouco hora para atender a quem precisa, luta por médicos, por dentistas. Não há na casa laudos e relatórios pendentes, graças ao profissionalismo brilhante de nosso setor jurídico. Então meritíssimo o que falta aos apenados da PASC? Queixam-se de superlotação, mas as celas são individualizadas. Reclamam de medidas de segurança que vem sendo adotadas e de normas que devem ser seguidas, como se os apenados da PASC não necessitassem segui-las. Considerem-se presos diferenciados; sendo que em entrevistas de avaliação não raras às vezes ouvi: “a senhora sabe com quem esta falando?” como se a identidade criminal adquirida lhe concedesse honrarias e por isto mesmo tivessem que ser tratados com reverência. Aqui na PASC trata-se apenado com respeito, mas não com concessões; a nós não há celebridades no crime.
Meritíssimo, o que pedimos é respeito. Os defensores podem fazer suas alegações e defesas de seus clientes, sem nunca esquecer o respeito e a ética; sem fazer ataques pessoais, dentro de um profissionalismo. O nosso desejo é de que o judiciário possa ser nosso aliado nesta luta; que aponte os erros para que possamos corrigi-los quando necessário. Todavia, que possam nos ouvir e ver que somos pais, esposas, irmãs e trabalhamos arduamente ainda acreditando que podemos ter um futuro melhor.
Grata pela compreensão reitero votos de grande estima e consideração.
Vanda Maria Santos Alves
Monitora Penitenciária Psicóloga
Meritíssimo Juiz:
Venho através deste, expor-lhe uma triste realidade; uma realidade que todos fecharam os olhos e se calaram, não por conivência, mas por medo: que o crime organizado já chegou ao nosso estado, se enraizou e comanda nossas prisões, principalmente a PASC. Tal é o seu poder que nós funcionários passamos a ser “reféns”: trabalhamos conforme as suas “normas”, ou somos ameaçados, “enchovalhados” perante a opinião pública, temos nossa reputação e idoneidade moral contestada diante de falsas alegações e assim vai ocorrendo até que cansados de fazer frente a essas organizações nos rendemos e tentando preservar o mínimo de dignidade que nos restou desta árdua batalha, pedimos para ir trabalhar em outras prisões. Tal decisão muitas vezes ocorre para que não comunguemos com o funcionamento criminoso de alguns apenados.
É Meritíssimo, triste realidade a nossa que todos os dias saímos de casa para exercer nossas atividades, sem a certeza de que voltaremos ilesos, não somente fisicamente, mas principalmente moralmente. Aqui na PASC somos julgados e sentenciados por um “tribunal” sem nome; não temos defesa e a nossa condenação, por vezes, é perpétua, pois quando se atinge a idoneidade e a reputação, nem uma pena temporal apaga.
Não temos direito ao 1/6 e tampouco aos direitos mínimos de ampla defesa. Covardes são as formas de “ataques”; covardes são algumas “reclamações”; covardes são as “ameaças” que muitas vezes estendem-se a nossos familiares.
Meritíssimo, quando ingressei no serviço público, há aproximadamente 10 anos, acreditava que havia sentido o meu trabalho, que fazia sentido acreditar e investir em convicções. Parafraseando Olga Benário; “Lutei pelo que achava justo e correto; para que pudesse fazer uma sociedade melhor”. Todavia, jamais me refutei ou me “escondi” de situações que se fizeram necessárias; busquei fundamentar meus atos e entendimento, com o claro propósito de auxiliar aos senhores em uma decisão. Não “brinco” de trabalhar; não faço experimentos e tampouco utilizo a sociedade como “laboratório”. Não omito fatos que acho importantes e que possam servir de subsídios ao judiciário. Não sou juiz, tampouco tenho poder discricionário, sou somente uma servidora pública que procura de forma consciente e madura exercer suas atividades.
Contudo, meritíssimo percebo o quanto é difícil ser “profissional” em um lugar onde covardemente somos aviltados tanto por apenados, quanto por alguns de seus defensores. A moral e a decência são valores inquestionáveis. Onde está a nossa fé pública? Onde está o respeito pelo profissional? Somente quem trabalha 08 horas diárias (isto no papel, porque freqüentemente levamos serviços para as nossas casas: o sistema tem que funcionar), de segunda a sexta (e quando necessário) sabe as dificuldades vividas.
Vergonha é o que sinto quando percebo que valores estão sendo distorcidos: nós passamos a ser reféns do medo. A que ponto chegamos; é realmente, o sistema prisional beira a falência. Heróis são aqueles que continuam lutando para que haja justiça; heróis são esses colegas pais de família que fazem quase que dupla jornada de trabalho para dar a seus familiares uma vida mais digna.
Meritíssimo, perdoe-me se trago a vossa excelência minhas agruras e mazelas; contudo, cansei de fazer de contas que não temos conhecimento do local em que estamos; cansei de “fazer de contas” que não vi a triste situação de colegas que “adoeceram” por não conseguirem realizar suas atividades de forma honesta: guerreiros colegas; por vezes meninos, com convicções de que conseguiriam mudar a realidade das prisões; guerreiros porque acreditaram em seu saber profissional, investiram e se dedicaram, mas que agora demonstram cansaço pela luta desigual travada diariamente.
Meritíssimo, vejo hoje uma administração cujo intento é trabalhar dentro da legalidade, da moralidade e do respeito. Todavia, vejo que estes “heróis” também percebem a triste realidade desta penitenciária, contudo, mostram-se aguerridos e continuam a lutar.
Meritíssimo, esta casa prisional procura disponibilizar aos apenados todos os elementos necessários para uma boa trajetória carcerária. Os apenados possuem o que muitos pais de família e trabalhadores nunca tiveram e talvez nunca terão: serviço social, psicológico, mesmo tendo alguns apenados seus advogados constituídos a casa oportuniza que sejam atendidos por profissionais de excelente estirpe do setor jurídico; possuem enfermaria, sendo que esta profissional não tem dia e tampouco hora para atender a quem precisa, luta por médicos, por dentistas. Não há na casa laudos e relatórios pendentes, graças ao profissionalismo brilhante de nosso setor jurídico. Então meritíssimo o que falta aos apenados da PASC? Queixam-se de superlotação, mas as celas são individualizadas. Reclamam de medidas de segurança que vem sendo adotadas e de normas que devem ser seguidas, como se os apenados da PASC não necessitassem segui-las. Considerem-se presos diferenciados; sendo que em entrevistas de avaliação não raras às vezes ouvi: “a senhora sabe com quem esta falando?” como se a identidade criminal adquirida lhe concedesse honrarias e por isto mesmo tivessem que ser tratados com reverência. Aqui na PASC trata-se apenado com respeito, mas não com concessões; a nós não há celebridades no crime.
Meritíssimo, o que pedimos é respeito. Os defensores podem fazer suas alegações e defesas de seus clientes, sem nunca esquecer o respeito e a ética; sem fazer ataques pessoais, dentro de um profissionalismo. O nosso desejo é de que o judiciário possa ser nosso aliado nesta luta; que aponte os erros para que possamos corrigi-los quando necessário. Todavia, que possam nos ouvir e ver que somos pais, esposas, irmãs e trabalhamos arduamente ainda acreditando que podemos ter um futuro melhor.
Grata pela compreensão reitero votos de grande estima e consideração.
Vanda Maria Santos Alves
Monitora Penitenciária Psicóloga
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