sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Razão visita o purgatório de Santa Maria.

Se o inferno não é aqui, com certeza é o purgatório, descrito pela crença católico-cristã como lugar de passagem dos mortos. É o local de purificação dos pecadores para que eles possam pagar seus erros e ter direito a um lugar melho. As cadeias, locais para onde vão criminosos e pessoas que cometeram erros na ótica da lei de cada país, são uma espécie de purgatório. Os condenados vão para lá para cumprir suas penas e, depois de “ressocializados”, retornarem ao convívio social. As penitenciárias são pelo menos pedaços do inferno, aqui mesmo, na Terra. O Presídio Regional de Santa Maria é um desses pedaços. Uma visita, mesmo que rápida, ao complexo prisional da Rua Isidoro Grassi, no Bairro Medianeira, dá uma ideia de quanto é difícil viver sem liberdade. Atrás das grades, em situações precárias, é que e se pode mensurar o valor de ser livre.
Em novembro deste ano, após uma série de tentativas, contatos, pedidos de permissão, ofícios e justificativas, uma equipe de A Razão conseguiu autorização para uma curta visita ao Presídio Regional de Santa Maria. Entre as condições impostas pela Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) e pela direção da casa estava um roteiro estabelecido pelos próprios diretores, e acesso limitado às dependências do complexo. Durante a visitação, o superintendente regional da Susepe, Domacir Corrêa, acompanhou a reportagem. Apesar da sensação de censura, foi possível confirmar, “in loco”, as mazelas do sistema penitenciário brasileiro e até respostas para perguntas como, por exemplo: por que são comuns as revoltas e as tentativas de fuga?
Por quase duas horas, caminhamos pelo corredor principal, pela cela especial, onde ficam os presos considerados de confiança e que trabalham na cozinha. “A situação é essa aí, é precária”, diz o apenado João (nome fictício). Ele contou sobre o dia-a-dia, a superlotação e as condições do Presídio Regional de Santa Maria. “A superlotação está exagerada. Não é só aqui, é em todo Estado. Estamos esperando o novo presídio ficar pronto para desafogar, acho que lá, vai melhorar”, acredita. João está no alojamento da galeria B, que segundo ele tem capacidade para 42 presos, e na data da visita abrigava 60 homens. “Tem gente dormindo no chão. Tem quatro camas, e sete ou oito presos em cada cela”, conta.
Um ponto evantado pelos apenados é quanto às penas de presos que afirmam já ter direito à progressão de regime ou até mesmo à liberdade. “Tem muita gente com direito a remissão de pena”, diz João. Em dezembro, algumas situações foram revistas com a dispensa de Natal, quando alguns presos do regime semiaberto receberam o benefício.
A valorização da liberdade só é lembrada na hora da prisão e a cada dia como interno no Regional. “A gente tem que sair e pensar duas vezes antes de cometer outros erros. Tenho quatro filhos e se eu pudesse voltar atrás não faria o que fiz. Pelo sofrimento não vale a pena”, relembrou o preso. O convívio faz com que alguns detentos se regenerem, fiquem mais conscientes e desejem a ressocialização e uma nova etapa em suas vidas. “Espero que vários presos não voltem mais. Peço que eles pensem duas vezes antes de se envolver com crimes”, desabafou.
A expectativa pela liberdade vem a cada pôr-do-sol, no dia-a-dia da prisão. “A primeira coisa que vou fazer quando sair daqui é voltar a trabalhar, que daí tu não tem tempo para estar pensando em nada. Esquecer o que passou e seguir em frente”, afirmou João.

Presos por galeria
Galeria A – 100
Galeria B – 38
Galeria C – 140
Alojamento – B – 56
Aloj. feminino – 56
Aloj. ala adm – 12
Aloj. cozinha geral – 36
Seguro – 108
Total – 546

Nenhum comentário:

Postar um comentário