
“Vão ocorrer mais problemas”
Sonáli da Cruz Zluhan, juíza da Vara de Execuções Criminais em Caxias do Sul
O presídio que deveria ser modelo virou o mais temido pelos presos. Segundo a juíza Sonáli da Cruz Zluhan, da Vara de Execuções Criminais de Caxias, o desvio do projeto original transformou a Penitenciária Regional de Caxias em um pesadelo para os detentos. Falhas de segurança e falta de agentes penitenciários, afirma ela, criaram um clima de tensão que pode ter favorecido a ocorrência de torturas. Na entrevista a seguir, a juíza afirma que novos problemas acontecerão se não fora achada uma solução:
Zero Hora – Qual é o significado da ocorrência de fugas e de denúncias de tortura na Penitenciária Regional de Caxias, apontada como modelo pela Susepe?
Sonáli da Cruz Zluhan – Essa consideração da Susepe de ser uma penitenciária modelo é altamente questionável. Não sei modelo de que eles consideram. Não entendo isso até hoje. O preso está lá dentro fechado na cela por 22 horas, não existe trabalho prisional ali e há poucos agentes penitenciários. Os presos não têm direito a nada do que foi planejado para aquela penitenciária – trabalho prisional, educação, área de convivência –, porque não tem agente suficiente para movimentar o preso lá dentro.
ZH – O problema é que o projeto não está sendo seguido?
Sonáli – Não foi implementado. O prédio é limpo e amplo. Mas o preso fica 22 horas na cela, não pode fumar e não tem tomada na cela, então não tem TV e não ouve rádio. Como o pátio não é murado e não tem agente, os presos saem de forma escalonada, só uma hora por dia, e não podem fazer nada no pátio além de caminhar. O preso que vai para lá acha que está indo cumprir castigo. Tenho presos que vieram transferidos da Pasc, o único no Estado com regime diferenciado, e eles acreditam que aqui é pior do que a Pasc, por terem de ficar confinados, de usar uniforme – o que não existe em nenhum outro presídio do Estado –, de usar chinelo de dedo no frio, por não poderem fazer quase nada.
ZH – Então a penitenciária modelo é pior do que as outras?
Sonáli – Sim. Não tem preso que queira cumprir pena ali. Eles preferem em 12 em outro presídio do que em três ou quatro por cela aqui.
ZH – Essa situação colaborou para a suposta tortura?
Sonáli – Aquele presídio tem um clima de tensão constante. São poucos agentes penitenciários, com a obrigação de impor essa disciplina. O preso está sempre testando e constantemente revoltado com isso. Sempre ocorre alguma coisa ali. Por mais agentes penitenciários que se coloque, se não for flexibilizado o regime, não tem solução.
ZH – Que lição para as prisões gaúchas se tira dos fatos nessa penitenciária?
Sonáli – É um projeto que não funcionou porque não se colocou pessoal e porque se comprovou que a segurança era falha. Por exemplo, existe uma central de controle onde ficam os agentes penitenciários. Essa central tem contato direto com os três blocos das galerias. No primeiro momento, quando foi inaugurado, o agente não tinha proteção nenhuma, não havia um gradil que separasse. O projeto é totalmente falho, aí se começou a remendar.
Fonte: www.zerohora.com
Só não entendo por que o Judiciário sabendo desses problemas nada fez e nada cobrou do estado para que se tomasse uma atitude. Sabendo que a cadeia estaria inacabada por que não esparar para que se ficasse pronta? Ainda se o efetivo é reduzido por que não solicitou reforço?
Ah sim, agora fica mais fácil, se púni o servidor, se dá explicações à sociedade e fica tudo certo, a melhor forma que o estado encontra para acobertar a sua incopentência.
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