sábado, 17 de abril de 2010

Madre Pelletier: agentes sob suspeita

Uma investigação do Ministério Público, concluída em dezembro, revela que quatro servidores da Susepe lotados na Penitenciária Feminina Madre Pelletier teriam colaborado com criminosas ligadas ao tráfico. Entre os denunciados, está Silvia Terezinha Rangel Silva, ex-diretora da penitenciária. Confira seis pontos da denúncia:celulares para presas, escoltariam apenadas em passeios irregulares e receberiam dinheiro de traficantes. A investigação resultou no afastamento prévio da servidora do cargo.

A seguir, ZH revela como agiria o grupo formado por agentes da lei denunciados pelo MP por formação de quadrilha, peculado, incitação ao crime e associação para o tráfico. Como são funcionários públicos, a Justiça aguarda manifestação dos suspeitos para decidir se instaura ou não processo penal.

Um mimo do Paraguai

Às 16h33min de terça-feira, dia 2 de setembro de 2008, o telefone do auxiliar de serviços gerais Valdir Antonio Perez tocou na penitenciária feminina. Do outro lado da linha, o namorado de Leila Maria Ferreira da Silva, presa por tráfico de drogas e uma das 470 detentas do estabelecimento.

Funcionário da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), Perez teria pedido um celular ao namorado da traficante. O presente, segundo o MP, chega às mãos do servidor nove dias após a conversa. O aparelho, utilizado por Perez, era emprestado para Leila conversar com o namorado – traficante residente em Foz do Iguaçu (PR).

Numa das conversas interceptadas pelo MP, Perez teria oferecido sua conta-corrente para que o homem depositasse dinheiro para Leila e sua irmã, Rosânia Maria Ferreira da Silva, também presa.

R$ 2 mil para agente

Funcionário da Susepe, o agente penitenciário Vladimir Vilhena Pereira teria recebido, de acordo com promotores, complemento salarial de familiares de presos. Em 4 de outubro de 2008, um sábado, uma mulher teria prometido enviar dinheiro para as irmãs Leila e Rosânia e, junto, o valor correspondente ao acertado com Pereira. O dinheiro, diz a interlocutora em conversa flagrada com autorização judicial, seria depositado na conta do advogado das presas, que repassará para Pereira. Antes de se despedir, ela avisa para o agente penitenciário:

... em ligação telefônica, informa a VLADIMIR (Pereira) que vai enviar dinheiro para as apenadas LEILA e ROSÂNIA e junto um valor destinado ao agente penitenciário, aquele previamente ajustado e que será depositado na conta do advogado das presas, referindo, ainda, que se VLADIMIR (Pereira)“precisar de mais alguma coisa é só falar que ele mandará”.

Vinte e quatro horas mais tarde, a irmã das presas Leila e Rosânia avisa que R$ 300 estavam disponíveis na conta do advogado.

Um mês depois, ao anoitecer do dia 12 de novembro, Pereira teria se encontrado com a irmã das presas Leila e Rosânia na Rodoviária de Porto Alegre. Conforme o MP, o agente teria recebido R$ 2 mil no encontro.

Celular emprestado para detentas

Funcionários públicos estariam emprestando os seus celulares particulares para bandidos. Foi o que teria ocorrido no dia 8 de novembro de 2008, às 9h33min. Naquela manhã, o agente penitenciário Vladimir Vilhena Pereira faz uma ligação e alcança o aparelho para uma presa.

Durante o diálogo, ROSÂNIA solicita, com insistência, que verifique um notebook para a filha de VLADIMIR (Pereira), com o melhor preço que estiver no Paraguai, bem como este fale... para obter informações, na Argentina, relativo a um motor de automóvel da marca Peugeot para o mesmo agente penitenciário”.

Presas avisadas de inspeções

Servidores do Estado revelavam, com antecedência, a realização de inspeções periódicas feitas pelo Batalhão de Operações Especiais (BOE). Em 2 de fevereiro de 2009, o agente Vladimir Vilhena Pereira teria avisado que PMs realizariam, no dia seguinte, uma revista minuciosa na penitenciária.

Programada em conjunto pela corregedoria da Susepe, MP e Brigada Militar, a operação, destinada a recolher armas, drogas e celulares, realmente aconteceu, mas fracassou.

Associados para o tráfico

Para o MP, a complacência de funcionários públicos vai além da tolerância com o tráfico e o consumo de drogas.

Promotores identificaram indícios de que a direção do Madre Pelletier associou-se ao tráfico na prisão. Num dos trechos da denúncia oferecida à Justiça, consta: “... Rangel (Silvia Terezinha Rangel Silva, ex-diretora do Madre Pelletier), com poderes ilimitados dentro da penitenciária, uma vez que diretora do estabelecimento, entregava drogas à apenada Salete Fátima Machado.

Cantina privada

Promotores descobriram que as mordomias garantidas a três presas recolhidas no Pelletier incluíam celas individuais – numa penitenciárias onde 470 criminosas ocupam espaço destinado a 239 mulheres – e passeios escoltados por agentes penitenciários. Gozando da confiança da direção, Maria Cristina Silva Corrêa escolhia as demais apenadas que a assessoravam na cozinha. Utilizando gás, energia, fogão, freezer e geladeiras, pagos com impostos arrecadados pelo Estado, ela cozinhava bolos, pães, salgados e doces vendidos para presas. Segundo a denúncia, criaram “uma verdadeira cantina paralela” autorizada pela direção. A divisão dos lucros, sustentam os promotores, ocorria quando Cristina saía “escoltada” para fazer compras. No livro de ocorrências da penitenciária, foi registrado:



Contraponto
O que diz Ricardo Morales Brum, defensor de Mario Vitor Pereira de Arruda e Silvia Terezinha Rangel Silva.
“É uma denúncia infundada, mas prefiro aguardar a instrução processual, o que ainda não aconteceu, para me manifestar. Acho que será difícil comprovar as acusações apresentadas pelo Ministério Público.”

O que diz Vladimir Vilhena Pereira
“Não é hora de me manifestar. Já fui vítima de uma ação, em 2000, mas é tudo mentira. Estava fazendo um bom trabalho com a Rangel, estou com a minha consciência tranquila. Não sou de bater em presa. Quando saí de lá, tinha um abaixo-assinado para eu não sair. Fizeram um carnaval em cima, que meu Deus do céu. O meu advogado pediu para esperar.”
O que diz Valdir Antonio Perez
“Vou provar que sou inocente, mas prefiro não me manifestar.”

Fonte: www.zerohora.com

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