sábado, 17 de abril de 2010

Agentes contribuem para crime nas ruas

Embora tenham como epicentro as superlotadas cadeias gaúchas, as consequências das relações entre agentes penitenciários e o mundo do crime não se esgotam no cárcere.

Do lado de fora das grades, as atitudes de servidores corrompidos repercutem na vida de inocentes, engrossando as estatísticas de delitos como homicídios, furtos e assaltos.

Além de receberem regalias em troca do pagamento de propina – entre elas a permissão para sair da prisão e cometer crimes –, prisioneiros obtêm livre acesso a telefones celulares, transformados em armas dentro de celas e galerias. Por meio de ligações escusas, detentos comandam o tráfico de drogas, ordenam execuções e determinam ataques.

O problema é tão grave que, no ano passado, a Vara de Execuções Criminais (VEC) da Capital fez um rastreamento em sete prisões da Região Metropolitana atrás de celulares. Foram detectados nada menos do que 361 telefones móveis em uso e pelo menos 650 chips. Para juízes, promotores e policiais, não restam dúvidas de que, por trás desse descontrole, está a conivência de alguns agentes penitenciários corruptos.

Ao esquadrinhar os passos de um grupo de extermínio que vinha aterrorizando a população de Canoas nos últimos anos, agentes da 1ª Delegacia da Polícia Civil do município descobriram que seus líderes mandavam matar desafetos de dentro da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Por meio de telefones celulares, não apenas eram encomendados assassinatos, como também ouvidos os gritos de vítimas agonizando no momento da morte. Mais de 30 pessoas perderam a vida – entre elas inocentes, sem ficha na polícia. Não se descarta a possibilidade de que os criminosos contassem com a cobertura de servidores da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) para fazer as ligações livremente.

– No mínimo, houve negligência de agentes que atuavam lá dentro – resume o delegado Guilherme Pacífico.

À frente de uma megaofensiva deflagrada pela Polícia Federal para desarticular uma das maiores e mais perigosas quadrilhas de furto e roubo de veículos do Estado, o delegado Rafael França indiciou um agente penitenciário por suspeita de participação em um esquema que deixou centenas de gaúchos a pé.

Composto por mais de 70 pessoas, o grupo investigado pela PF seria responsável por uma rede criminosa completa, que atacava motoristas, adulterava carros, falsificava documentos e vendia automóveis clonados. O funcionário da Susepe Rodolfo Linck Oliveira, 57 anos, conhecido como Velho Linck, seria uma peça chave na organização, que, segundo os investigadores, tinha conexões em Santa Catarina, no Paraguai e no Uruguai.

Por não levantar suspeitas e gozar de benefícios em função do cargo, Linck seria responsável, conforme França, por guardar em sua casa, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, armas usadas pela quadrilha e carros clonados. Um desses veículos – um Meriva com placas frias – foi flagrado na residência do suspeito.

– Linck dava um caráter lícito à quadrilha, afinal, quem iria dar uma batida na casa de um agente? Ninguém desconfiava dele, por isso ele cuidava das armas e dos carros clonados – diz França.

Ao todo, 72 pessoas foram denunciadas por envolvimento. Linck foi preso enquanto trabalhava, no Instituto Penal Miguel Dario, na Capital, e levado ao Presídio Central, de onde foi solto após10 dias de reclusão. O agente foi denunciado pelos crimes de formação de quadrilha e receptação e atualmente responde à Justiça em liberdade. O processo está tramitando na 1ª Vara Criminal do Foro do Sarandi, na Capital.

Conforme a Susepe, Linck foi transferido para outro presídio e continua trabalhando.

Contraponto
O que diz a advogada do agente Rodolfo Linck Oliveira, Rita Toschi Selbach:
“Meu cliente nega envolvimento no caso. Não há nada consistente contra ele. É um senhor de idade, que nunca se envolveu em problemas. Chegou a responder um processo administrativo disciplinar dentro da Susepe depois de ter sido preso e foi absolvido.”

Fonte: www.zerohora.com

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