segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Estatística mostra que 3.794 apenados fugiram das prisões no primeiro semestre

Condenados se aproveitam do descalabro do sistema prisional e da estrutura policial deficiente para se manter longe das cadeias do Estado
José Luis Costa
Protagonistas dos episódios que aterrorizaram nas últimas semanas pequenas cidades como Boqueirão do Leão e Monte Belo do Sul, foragidos do regime semiaberto formam um exército de criminosos cada vez maior e perigoso.

Estatística divulgada ontem por Zero Hora revela que 3.794 apenados fugiram das prisões no primeiro semestre, o mais elevado número da década. São 21 novos criminosos à solta por dia no Estado. Eles se juntam a dezenas de milhares de apenados que deveriam estar pagando por seus crimes nas cadeias, mas estão livres por encontrar a porta aberta para fugir por conta da fragilidade do semiaberto.

Entre eles, bandidos como o assaltante de bancos e carros-fortes Igor Machado, o homicida Luiz Henrique Sanfelice e o traficante de drogas Juraci Oliveira da Silva, o Jura, foragido desde abril da Casa do Albergado Padre Pio Buck.

Suspeito de matar o vice-presidente do Cremers, Marco Antonio Becker, Jura estaria gerenciando sua boca-de-fumo na zona leste de Porto Alegre a partir do Paraguai. Em relação a Igor Machado, há indícios de que o criminoso esteja por trás dos recentes ataques a banco na Serra. Sabe-se, também, que Sanfelice andou cruzando o interior do Rio Grande do Sul antes de fugir, provavelmente, para a Espanha.

A vida dos fugitivos é facilitada pela estrutura policial deficiente para recapturá-los e por uma certa resignação das autoridades por causa da superlotação dos presídios. Se todos os foragidos fossem recapturados, onde trancafiar todos esses criminosos?

Em documento enviado em agosto por juízes das varas de execuções criminais do Estado ao Conselho Nacional de Justiça, magistrados afirmaram que o sistema prisional gaúcho “só não entrou em colapso por causa das fugas”.

Há quatro anos, existiam 9 mil detentos foragidos nas ruas. Atualmente, estima o delegado Eduardo de Oliveira César, da Delegacia de Capturas, o número pode chegar a 15 mil. Se o delegado estiver correto, somente para abrigar esses foragidos seria necessário construir sete novas prisões do tamanho do Presídio Central de Porto Alegre, o maior do Estado, com capacidade para 2 mil presos. Isso sem considerar o déficit carcerário de 11 mil vagas para os criminosos já encarcerados.

Secretaria da Segurança proíbe divulgação de dados

Mas o número de foragidos nas ruas é uma incógnita para os gaúchos. Isso porque essa estatística não é divulgada pelas autoridades. A Polícia Civil dispõe dos dados, mas não os revela por determinação da Secretaria da Segurança Pública (SSP). A mesma regra vale para a Brigada Militar. Zero Hora solicitou a informação à SSP, mas não obteve resposta.

Os números são mantidos em sigilo pelo Departamento de Gestão da Estratégia Operacional (DGEO), sob justificativa também desconhecida.

No primeiro semestre deste ano, a Polícia Civil e a Brigada Militar tiraram de circulação 5.292 pessoas em débito com a Justiça, segundo dados da Secretaria da Segurança. Mas não se tratam apenas de foragidos das cadeias. O número inclui indivíduos com prisão temporária ou preventiva decretadas pela Justiça e condenados que nunca entraram em um presídio, inclusive devedores de pensão alimentícia.

Fugitivos notórios

Conheça alguns dos mais perigosos e conhecidos detentos do regime semiaberto que estão desaparecidos:

- Luiz Henrique Sanfelice, 44 anos

Em junho de 2004, o empresário do ramo calçadista de Novo Hamburgo liderou uma passeata em protesto pelo assassinato da mulher, a jornalista Beatriz Helena de Oliveira Rodrigues, 43 anos, cujo corpo foi queimado em um carro.
Uma semana depois, Sanfelice foi preso pelo crime e mais tarde condenado a 19 anos de prisão.

Em março de 2007, o empresário foi para o semiaberto no Presídio de Novo Hamburgo, de onde fugiu em abril de 2008. Quatro meses depois, a segunda mulher de Sanfelice fez uma nova carteira de identidade, em Carazinho, e 48 horas depois, em Cachoeira do Sul, o filho do casal também requisitou novo documento.
Há suspeita de que estejam na Europa, pois Sanfelice tem cidadania espanhola.

- Paulo Ricardo dos Santos, o Batata, 40 anos

Nascido em Taquara, se notabilizou como traficante de drogas na zona norte de Porto Alegre. Em 2001, foi preso com uma carga de cocaína, mas levou junto para a cadeia policiais que o prenderam por suposto desvio da droga.
Meses depois, foram descobertas ligações de Batata com o megatraficante carioca Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Da cadeia, pelo celular, Batata encomendava drogas e armas. Condenado a sete anos por tráfico, fugiu uma única vez, quando estava no semiaberto do Instituto Penal Escola Profissionalizante, em Charqueadas, em abril de 2004. Até hoje segue desaparecido.

- Carlos Ivan Fischer, o Teco, 42 anos

Natural de Santa Cruz do Sul, é apontado como participante do bando que fez ataques simultâneos a bancos de Triunfo e Farroupilha no ano passado. Já foi indiciado em 18 inquéritos – 12 deles por roubo e também por receptação e formação de quadrilha – com condenações que somam 20 anos de prisão. Em maio de 2004, depois de três anos como fugitivo, foi pego em uma churrascaria de Canoas. A quarta e última fuga de Teco do semiaberto foi da Colônia Penal Agrícola de Charqueadas, em maio de 2008.

- Juraci Oliveira da Silva, o Jura, 35 anos

Chefe de bocas-de-fumo no bairro Partenon, na Capital, Jura tem condenação até 2027 por tráfico e homicídio. É suspeito de participação na morte do vice-presidente do Cremers, Marco Antonio Becker, a mando de um desafeto da vítima. Em 2001, Jura tentou se livrar da acusação de um homicídio com a ajuda de dois policiais e um advogado. Foi trocado um cadáver, que depois de exumado, resultou em um falso exame de DNA.

Foi preso pela primeira e única vez em 2003, em Estrela, voltando de Ponta Porã (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai, seu possível atual esconderijo. Está foragido desde 23 de abril da Casa do Albergado Padre Pio Buck.

- Igor Machado, 36 anos

Preso pela primeira vez por furto, em 1991, em Porto Alegre, tornou-se um dos principais assaltantes de bancos e carros-fortes.
Exímio atirador de fuzil, fez parte da quadrilha dos Irmãos Galhardo, que assombrou o Estado nos anos 90, e mais tarde se aliou ao bando de José Carlos dos Santos, o Seco.

Em 13 de março, foi recapturado em Florianópolis, ao levar a mulher grávida a uma clínica. Em 23 de abril, fugiu do Instituto Penal de Mariante, a quinta vez do semiaberto. Usa documentos falsos. Tem condenação até 2023.

- Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão, 49 anos

Um dos mais antigos e poderosos distribuidores de drogas de Porto Alegre, chefe do tráfico na Vila Maria da Conceição, Paulão é acusado também de mandar matar quatro desafetos.

Por um dos homicídios, foi condenado a 22 anos de prisão, em março, mesmo sem aparecer no júri. Sob alegação de problemas de saúde, Paulão estava em prisão domiciliar por ordem da Justiça, mas desapareceu em setembro de 2008, ao saber de uma megaoperação na Vila Maria da Conceição para prendê-lo

Fonte: www.zerohora.com

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