Presos de Porto Alegre usam celulares de dentro das cadeias
Celulares entram nas cadeias da região metropolitana de Porto Alegre e são utilizados livremente pelos presos que lá de dentro ameaçam e intimidam quem está fora.
Uma ligação para telefone móvel e o pedido para deixar recado. Seria comum se o telefone não fosse de um detento do Presídio Central, em Porto Alegre.
Preso: "Agora no momento aqui nesse aparelho está difícil, eu troquei o chip, vou fazer uma mão, mas eu dou um toque nele para ele te ligar".
Produtor: Qual é galeria aí?
Preso: "É a A!"
Outro preso conta que já mudou de galeria e levou o celular.
Preso: "Na real, esse telefone não está mais lá, está na terceira (galeria) do (pavilhão) F. Eu troquei de galeria e agora para falar com eles lá só se tu arrumar outro número de lá para a primeira do B, né?".
Produtor: Não tem como conseguir esse telefone?
Preso: "Não tenho, eu troquei de galeria há cinco dias e eu trouxe o telefone para cá".
Em três meses a reportagem conseguiu 65 números de telefones que estão com presos na capital gaúcha e em Charqueadas, região metropolitana de Porto Alegre. Nesta ligação, o chefe de uma galeria oferece apoio para o preso que seria transferido.
Preso: "Está na mão, pode vim para cá, aqui é tranquilo, aqui é a primeira (galeria) A, galeria dos 'bala'. O 'bagulho' aqui é malandragem, mano. Pode fica tranquilo".
Os aparelhos são controlados por chefes de galerias, também chamados de "prefeitos". São eles que determinam quem deverá ser extorquido para garantir os créditos nos celulares.
As vítimas mais comuns são parentes de presos. Uma pessoa já gastou quase R$ 5 mil em cartões telefônicos para garantir a própria segurança e a do marido, que está no Presídio Central.
"O nosso familiar liga e a gente já tem que estar com os cartões em mãos para passar os números. Se não ameaçam que pode acontecer alguma coisa com ele, ele perder a proteção lá dentro ou com nós aqui fora", diz uma testemunha.
Juízes e promotores estimam que há cerca de três mil aparelhos nas mãos dos presos só no Rio Grande do Sul. O uso de celulares nos presídios passou a ser crime somente na semana passada, quando uma lei federal foi sancionada.
Mas a pena ainda é considerada branda, varia de três meses a um ano de detenção. "Isso o que quer dizer para quem já está lá dentro condenado 15, 20, 30 anos, não é nada", afirma o delegado Pedro Urdangarin.
De janeiro pra cá, 640 celulares foram apreendidos nas penitenciárias de Charqueadas e Porto Alegre. Os aparelhos entram sempre da mesma maneira. "Por meio dos familiares, metade, por familiares e a outra metade por funcionários públicos corruptos", diz o juiz Luciano Losekann.
Nas cadeias os aparelhos servem para que os presos continuem cometendo crimes. Neste diálogo, gravado com autorização judicial, um apenado faz uma oferta a outro homem.
Preso: "Está ligado na camisa do Ronaldinho número 9?"
Homem: "Hã".
Preso: "Apareceu duas ali e apareceu a número menor que a dele, a zero no final".
Homem: "Sei, sei, sei".
"O preso de dentro do presídio ele consegue on-line acompanhar a atividade criminal. O prejuízo que se tem para sociedade é muito grande, quem sofre é a sociedade", afirma o delegado Guilherme Pacífico.
Fonte: www.g1.com/jornaldaglobo
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