
Está superlotado,Presídio Regional de Santa Maria abriga 493 presos.
Quase o dobro da sua capacidade a lotação crônica da cadeia da Rua Isidoro Grassi, no bairro Medianeira, atingiu uma marca histórica. Neste mês, o Presídio Regional de Santa Maria chegou a receber o dobro de presos do que tem capacidade de comportar. Ontem, 493 homens e mulheres ocupavam o lugar feito para 250. As más condições ficam evidentes. Quem vê o edifício de um amarelo desbotado pela primeira vez se choca. Ao passar pelo portão principal, a má impressão se confirma.
Na parte da frente, ainda no pátio, vozes de mulheres gritavam pedindo mais espaço, no dia em que uma equipe do Diário foi até o local, em 19 de agosto. Naquele dia, a cadeia abrigava 499 presos.
– Está todo mundo empilhado aqui dentro. A gente tem de dividir espaço com as baratas – contava uma detenta da janela de um dos alojamentos femininos, quando a equipe do Diário visitou a cadeia com administrador do presídio, Canrrobert Fournier da Silva, e o delegado penitenciário regional, Domacir Correia.
Logo na entrada para o edifício onde estão as detentas, há sacos de lixo espalhados pelos corredores estreitos. As paredes que levam até a galeria B são úmidas e, com um toque, dá para sentir uma camada de gordura e sujeira impregnadas. Pelo caminho, é quase impossível encontrar azulejos e lajotas que não estejam quebrados e sujos.
Em várias celas, calçados, roupas íntimas e toalhas dos detentos ficam pendurados pelas paredes e na janela. Na 17, os objetos disputavam espaço com sete presos, um aparelho de TV de 14 polegadas, dois beliches de concreto, sete colchões, um vaso sanitário, fiação de energia elétrica à mostra e alguns utensílios domésticos. É nesse local, com paredes sem pintura, que os presos dormem, comem, tomam banho, assistem a TV e passam cerca de 23 horas do dia.
– A cadeia se torna um depósito de gente. A violência se reflete na sociedade – diz a juíza da 3ª Vara Criminal e Vara das Execuções Criminais, Andréia Nebenzahl de Oliveira.
‘Seguro’ – No chamado “seguro”, na galeria B, a situação é mais alarmante. Em uma peça reduzida, 34 homens disputam espaço. Só 28 têm beliches para dormir. O resto se acomoda no chão. Quando a porta se abre, um cheiro de gente invade as narinas. Lá dentro, o ar parece sólido. Chamado de “brete” pelos próprios presos, ali ficam os rejeitados da cadeia: detentos com dívidas de droga ou que não se encaixam em nenhuma das facções.
De acordo com Canrrobert, o complexo já chegou a ter 508 presos. A situação não é privilégio de Santa Maria. Presídios espalhados pelo Estado e pelo país padecem do mesmo mal.
Desde o dia 18 de maio, o local está sob regime de interdição parcial. A medida, determinada pela juíza Andréia, estabelece que apenas presos em flagrante ou com prisão preventiva decretada podem ser mandados ao presídio. Presos que aguardam suas sentenças em liberdade e forem condenados ao regime fechado ou ao semiaberto vão para outras cadeias.
O objetivo da medida é forçar a conclusão da nova penitenciária de Santa Maria. A obra está 90% pronta. A interdição irá valer até a inauguração da cadeia.
– É lamentável a situação que Santa Maria vive hoje. Quando vi que o presídio novo não saía do papel, fui obrigada a tomar essa medida. O problema é que os outros presídios também estão superlotados – afirma.
Canrrobert admite que a interdição não surtiu o efeito esperado. A cidade recebe presos de locais em que não há cadeias, como São Pedro do Sul e Restinga Seca.
Santa Maria tem 10 opções de locais para onde enviar os presos: Agudo, São Francisco de Assis, Jaguari, São Vicente do Sul, Santiago, Júlio de Castilhos, São Sepé, Cacequi, Cachoeira do Sul e Cruz Alta. A direção do Presídio Regional tem tido de apelar também para outros presídios, como os de Caxias do Sul, Charqueadas e Ijuí. Hoje, 24 presos de Santa Maria cumprem pena em cadeias de fora da cidade.
O destino dos presos que cumprem pena em regime fechado será a nova penitenciária (leia texto ao lado). Enquanto isso não acontece, o banho de sol, no pátio interno da cadeia, sob o olhar atento de agentes armados, são os minutos em que os presos esquecem o aperto do regional.
Fonte: www.clicrbs.com.br/dsm
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